sexta-feira, 25 de outubro de 2013

As desventuras de Kill Billy - Parte I




     O banheiro parecia cada vez menor e as pancadas ensurdecedoras que o descontrolado ex-noivo de Silvinha desferia em sua porta, encegueirado que estava, reverberavam feito a bateria do Olodum nos ouvidos do acuado Billy.

Caíque foi ferido em sua honra em pleno dia de festa de Iemanjá, no único momento do ano em que se permitia desviar os olhos de Silvinha e voltá-los ao alfazemado mar da praia do Rio Vermelho, orando pra sua santa de cabeça.

“Abre essa pôa fidaputa! Eu tenho a vida inteira pra cortar seus quiba! Nunca mais cê vai mexer com mulé que tem dono seu fulêro! Uruvango! Cabasafado! Eu vou fazer omelete com seus ôvo e dá pros cachorro cumê, marico desgraçado!”, berrava o corno, irado.

     Avexado, Billy só foi notar que seu celular estava no bolso da bermuda uns 15 minutos depois, quando teve a ideia de ligar para o Gaylego, um amigo com quem dividia a morada, e pedir-lhe socorro. “Gaylego! Gaylego pôa! É Billy! Billy, pôa... é que não tô podendo falar alto, caráio... Vou falar rápido pra bateria não acabar! Venha me acudir pôa. Tô trancado no banheiro da Silvinha... a Silvinha do acarajé do Rio Vermelho, caraio... o ex-noivo dela tá segurando uma faca querendo me matar pôa! Acho até que já matou ela que ela tá é muito calada agora. Venha logo pôa. Chame Sôpa de Osso. Traga reforço pôa!"

     Enquanto isso, do lado de fora do banheiro, o corno gritava que Billy não teria saída. Mesmo que chamasse o CSI Itapuã ou o Abaeté 5.0. “Pode ligar pros seus macho tudinho! É bom que eu mato todo mundo e faço um sarapatel com os miúdo dessa raça de Alagoinhas, que eu sei que você é de lá! Bando de desocupado! Mostra a cara pôa! Se for macho mostra a cara! A cada minuto que cê demorá eu ranco um dedo fora da Sil! Duvide! Ah se eu num tenho corage! Aone?"

     Do outro lado da cidade, o Galegay rumava desenfreado com o cu piscando mais do que cu de pinto para tentar salvar a vida do Bililinho quando viu subir na ladeira próxima a sua casa ninguém mais, ninguém menos, do que o destemido Sôpa de Osso.

“Ô Sôpa! Sôpa pôa!Entrenocarroqueobillyestásecagandotododentrodeumbanheiroporcausadonamoradodamantedelepôa!”

Quê? “Entrenocarroqueobillyestásecagandotododentrodeumbanheiroporcausadonamoradodamantedelepôa!”

     O Gaylego, quando calmo, mal se fazia entender. Nervoso, então, era a pessoa mais incompreensível do mundo. Na dúvida, e percebendo pela cara dele que a coisa deveria ser realmente séria, Sopa de Osso entrou no carro, pra ver se com o tempo conseguiria decifrar aquele hieróglifo verbal do amigo. Desesperados, os dois heróis seguiram em direção ao apartamento da garota e logo que chegaram, encontraram a porta aberta e Silvinha, sozinha, em prantos, em frente a porta do banheiro.

     O Gaylego foi logo perguntando pelo ex-noivo e ficou sabendo que a família do cara já havia arrastado ele de volta pra casa.

     Mais tranqüilo, muito mais tranqüilo, o Gaylego disse a Billy, ainda trancado, que ele já podia sair que a barra tava limpa. "ô Billy! Billy! Podesairqueocarafoiemboracommedodagentepôa!Cetasalvo!"

     "É mentira pôa. O cara deve tá com a faca no pescoço de vocês. A pôa que eu saio daqui! Nem que o Durval tivesse aí na porta eu saía".

     "Ô Billy! Agora é Sôpa! Sai fora véio! O cara foi levado pela família".

     O poderoso Billy só saiu do seu cárcere quase uma hora depois, quando percebeu que o Gaylego já estava cantando a garota dele. Mesmo assim, voltou dizendo o tempo todo, entre lágrimas: - Eu amo vocês caras. Vocês é que são a razão da minha vida! Eu amo a vida! Amo o Dique do Tororó. Amo o time do Vitória também. E o Durval Lellys e o Maradona. Nunca mais vou querer saber de mulher bicho. Nunca mais! Êpa, Gaylego. Gaylego pôa! Pare o carro um pouquinho aí bicho! Quem é aquela morena rabuda subindo a ladeira?