segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Vinho não é pra todo mundo

TRILOGIA DE BACO



I
Vinho não é pra todo mundo


Quando me chegou às mãos o convite do aniversário da Eduarda eu já fiquei pilhado. Eduarda é daquelas amigas que a gente só vê de ano em ano, no dia do seu aniversário. Acho até que é o único dia que ela pisa no Brasil, já que passa a vida viajando só pra poder encher seu facebook de fotos e os amigos de inveja.
O título “Queijos e vinhos” já encabeçava o glamouroso convite de papel de seda finíssimo, que elegantemente exalava um aroma remetendo aos luxuosos banquetes da nobreza francesa que eu nunca fui nem nunca serei convidado a ir. Logo abaixo vinha escrito: Traje Passeio Completo. Aí já era, vou ter que correr atrás de terno, camisa, gravata, calça social, cinto, sapato novo...enfim, terei que fazer antes um passeio completo pela casa dos amigos em busca do que deles me caiba.
Mas saltemos do choque inicial do convite e vamos direto à festa, porque Eduarda é uma velha amiga de infância e por mais que eu quisesse inventar uma desculpa para não ir, não daria pra deixar de prestigiá-la.
Seu pai é uma história à parte. O sujeito é um ex-pracinha que diz ter participado da Força Expedicionária Brasileira, trazendo até hoje na perna uma “filha da puta de uma bala atirada por um alemão igualmente filho da puta” na batalha de Monte Castelo, quase no fim da II Guerra Mundial.
Que o velho realmente manca, isso ninguém duvida, mas o porquê, de verdade, eu nunca tive interesse em saber. Sempre desconfiando daquela história toda, uma vez até tentei ir à fundo na questão, mas ele me olhou tanto com uma cara de quem estava prestes a iniciar a III guerra mundial ali mesmo, que eu resolvi esquecer de vez essa história e levantar a bandeira branca do esquecimento.
Chegou enfim o grande dia e estávamos eu e minha esposa parados em frente à porta de entrada, combinando que um não deixaria o outro sozinho em meio àquela gente com cara de capa da Caras. Eis que a imensa porta se abriu, tal qual a imensa porta porta do Castelo de Kafka (mas essa nunca se abriu), e com a surpreendente intimidade daqueles que quando criança brincavam de gato-mia no escuro, o velho guerreiro militar nos acolhe com um caloroso abraço. “Que bom que vocês vieram, essa molecada que tá aqui hoje, criada na merda da internet, não tem substância pra ter um papo a minha altura. Venham para minha mesa. Já!”. Soltamos em uníssono um tão seguro “sim senhor” que fez o velho reviver seus grandes momentos de quartel.
Na mesa dele havia um casal e mais uma senhora, recém-saídos do período elizabethano. Assim que fomos apresentados, minha fiel companheira disse em voz alta para que todos ali ouvissem: “Amor, fica por aqui um pouquinho que eu vou atrás da Eduarda e volto logo logo.” Passariam umas duas horas até que ela voltasse bebinha da Silva, na maior animação, portando uma caipirosca nevada na mão.
Esqueci de dizer que depois que largou as armas, a paixão de Seu Gélzio – deixem eu dar logo nome aos bois – voltou-se com toda força ao mundo dos vinhos. Ele não conseguia falar de outra coisa. Que acha um absurdo como alguém pode degustar um vinho branco numa taça bojuda ou um vinho tinto numa taça comprida, se até o Santo Graal, que é um símbolo sagrado, é uma taça de vinho. Que acha um absurdo alguém chamar vinho suave, de vinho. Que a máxima ‘nem tudo que é caro é bom’, jamais se aplica no caso dos vinhos. Que vinho não é bebida, é estado de espírito. Que não é qualquer saca-rolha que serve pra abrir qualquer vinho. Que vinho isso, que vinho aquilo...
Só sei que eu já estava quase virando um somellier e meu bico continuava seco seco. E ele lá segurando uma imensa taça de cristal dando-lhe tantas voltas no ar que praticamente já havia uma correnteza própria dentro dela. Ele jamais me permitiria sair dali. Enquanto os demais componentes da mesa só balançavam a cabeça, eu era o seu ‘escada’. Eu era o Dedé do Didi, o Dean Martin do Jerry Lewis, o Robin do Batman, o Daniel Alves do Messi... Era eu que educamente preenchia seu silêncio na hora dos seus tão valorizados goles com perguntas meticulosamente aptas a futuros e eloquentes discursos.
Já estava há séculos naquele papo interminável e havia até esquecido dos outros amigos da mesa. A conversa agora era comigo, o único que sabia fingir ser o melhor e mais curioso ouvinte do mundo. De repente ele me vem com essa história, de cunho confessional: “Olha, Djenalzinho, vou abrir meu coração pra você. O que eu mais sinto falta é de alguém que compartilhe esses momentos comigo. Pra apreciar um vinho, a pessoa tem que ter, acima de tudo, cultura. Como é que eu posso dividir uma garrafa de um raríssimo Château Mouton-Rothschild 1982 com alguém que jamais se preocupou em interpretar Baudelaire ou se emocionou com Flaubert? Que nunca verteu lágrimas diante de um Monet, no Louvre?”
Pronto. O velho estava milionário e com uma intelectualidade insuportável de um Falkner. Além de bêbado é claro. Mas ele insistia. “Vamos, me diga! Ainda bem que você está aqui pra dividir comigo esse momento de angústia. Venha, vamos brindar. Ô garçom, traz aí uma cervejinha bem gelada pro Djenalzinho!”.
Saindo de lá, prometi a mim mesmo que no outro dia faria uma visita ao meu cunhado, autodenominado “O Furão”, que gosta de beber Vinho do Frei em copo de requeijão, e quando só tem tinto seco, acrescenta coca-cola e gelo, que é pra ficar mais docinho.

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